21 de jun de 2012

não, van gogh não se suicidou


bom, foi assim: dia 27 de julho de 1890 van gogh volta para almoçar na estalagem onde está hospedado; almoça, pega seus apetrechos de pintura (tela, cavalete, pincéis, tintas, bloco de papel) e sai para ir pintar. cerca de cinco horas depois, volta à estalagem segurando o estômago e sem nada na mão. diz que se feriu e pede um médico. chega um médico, olha, era um orifício de bala calibre 38, logo abaixo das costelas, na parte superior do abdômen; tinha sangrado pouco e estava alojada no fundo da cavidade abdominal (o médico sondou com a mão), perto da coluna vertebral. ele estranhou algumas coisas: o tiro era baixo, veio numa direção oblíqua, a bala entrou de enviesado e se alojou por ali. concluiu que tinha sido um disparo de alguém, porque: se fosse o próprio vincent querendo se matar, por que miraria tão baixo? ademais, entrando numa trajetória oblíqua, parecia um disparo não intencional, e sim mais tipo acidental. além disso, se tivesse sido um tiro de perto ou à queima-roupa, a bala teria tido impulso para atravessar o tecido mole da seção média, perfuraria o osso e sairia do outro lado. pelo impacto, ele (e depois outro médico que chegou, o dr. gachet) concluiu que o disparo tinha sido de mais longe, "longe demais" para ter sido o próprio vincent a atirar.

aí vem a polícia - e como ele tinha dito "je me suis blessé", os policiais perguntam se foi ele mesmo que atirou em si. vincent responde, "foi, acho que sim"; eles insistem lembrando-lhe que suicídio era crime, e aí sim ele fica veemente e diz: "não, não acusem ninguém, fui eu mesmo que disparei em mim". tem muitas histórias desencontradas, muitas lacunas e incongruências; o revólver sumiu, a tela, o cavalete, os pincéis, tudo, tudo sumiu, inclusive dois rapazinhos que estavam passando as férias de verão na casa de campo do pai ricaço, um deles bonzinho, o outro uma peste, que justamente andava sempre com um 38 na mochila.

na lenda, nascida de boatos posteriores e fomentada principalmente por émile bernard, ficou que foi ele que se suicidou (com um tiro de longe na barriga? ele que não tinha armas e não sabia nada a respeito de armas? que várias vezes se manifestou enfaticamente contra o suicídio?). a lenda se engrandeceu e se cristalizou como mitologia, dizem os biógrafos.

o apêndice do livro retoma os poucos fatos comprovados, os diagnósticos, os registros das investigações policiais, depoimentos e entrevistas posteriores de testemunhas etc., e apresenta uma reconstituição dos acontecimentos segundo o que parece mais plausível e verificável aos autores. é longo, é interessante, é convincente, merece leitura, análise e atenção. dou apenas a conclusão: não, van gogh não se suicidou.