20 de jun de 2012

o último convite



última carta de vincent a theo, 23 de julho de 1890: nela ele faz um enorme croqui do quadro (também enorme, de largura dupla) que pintara tendo como tema o jardim de daubigny, e diz que é uma de suas pinturas mais refletidas, meditadas, intencionais e deliberadas. a essas alturas a coisa já está tão densa que fica até difícil expor a quantidade de motivos e razões presentes no quadro, que o levam a dizer a theo que é um dos mais carregados de significado. de qualquer forma, ele tinha escrito um rascunho da carta, um pouco mais explicativo, mas desiste e apenas diz: "bom, na verdade a única coisa que a gente pode fazer é deixar nossos quadros falarem".

mas, essencialmente, a questão principal é que esse quadro é o enésimo convite, mas o mais elaborado, o mais cheio de conotações, para que theo (e família) venha morar junto com ele, consumando anseios antiquíssimos e conceitos profundamente arraigados de um lar e uma irmandade de sangue e de arte, os laços indissolúveis entre "almas gêmeas", partilhando uma vida - nem sei como dizer, plena? - em meio à natureza e à arte. dito assim, fica meio superficial, mas, conforme a biografia foi sendo construída, a coisa adquiriu muita consistência e aqui culmina quase no sublime.

e muito provavelmente é também, segundo os especialistas, o último quadro que pintou em vida.