21 de jun de 2012

a reunificação na charneca

o luto de theo por vincent consistiu basicamente em reencarnar o irmão. no começo, ele que era sempre diplomático, educado, suave e conciliador, passou a se entregar a rompantes de fúria, ódio e gritarias. demite-se da goupil aos berros e sai batendo a porta (trabalhava lá desde adolescente). faz planos grandiosos de exposições da obra do irmão, relê todas as cartas, procura quem escreva um livro a partir delas, seu único tema de conversa é vincent. um mês depois entra em parafuso, a sífilis atinge o cérebro, é internado no hospital, transferido para um hospício. por um lado, é atendido pelos melhores médicos da frança, vai para o melhor hospício particular do país, recebe um cortejo de amigos e parentes em visita, tem a esposa jo bonger sempre amorosa e solícita, tudo ao contrário da solidão, isolamento e pobreza de vincent; por outro lado, theo tem uma constituição mais franzina e menos resistência psíquica e mental do que tinha vincent. é penosíssimo e fulminante o avanço da demência e da paralisia. 

jo o transfere para utrecht. não fala mais, não anda mais, tem incontinência, não se alimenta sozinho etc. acaba morrendo seis meses depois de vincent. apesar dos protestos de jo, a família sente vergonha; é enterrado sem funerais nem nada no cemitério público de utrecht. 25 anos depois, jo (aliás, era tradutora literária), que traduzira e publicara as cartas de vincent, divulgara sua obra etc., faz o translado do corpo de theo para auvers, enterrando-o ao lado de vincent; coloca lápides iguais com epitáfios iguais.


vincent por toda a vida sonhara em se reunir ao irmão nas charnecas da infância: finalmente os dois ficam juntos para sempre, entre os trigais de auvers.